Os hiperciclos catalíticos são a realização molecular de um sistema darwiniano: um ciclo fechado de unidades autorreplicativas em que cada membro acelera cataliticamente a reprodução do seguinte. Como cada unidade depende de um parceiro a jusante, a entidade que se reproduz não é nenhuma molécula isolada, mas o próprio ciclo, que se reproduz coletivamente e pode, por isso, ser tratado como um replicador de ordem superior.
Por que um ciclo de replicadores conta como um sistema darwiniano
A evolução molecular não é automática. Requer que três condições se verifiquem simultaneamente, e o hiperciclo é interessante precisamente porque fornece todas as três através de um único dispositivo estrutural: o ciclo catalítico fechado.
- Metabolismo: o sistema deve captar energia livre e matéria para impulsionar a síntese dos seus próprios componentes. Num hiperciclo, o produto catalítico de cada membro alimenta o trabalho sintético de outro membro, pelo que o ciclo mantém um fluxo interno de matéria e energia.
- Autorreprodução: o sistema deve produzir cópias de si próprio. Aqui, a unidade de reprodução é o ciclo, não a molécula isolada: cada membro potencia a replicação do seguinte, pelo que o ciclo no seu todo se autorreproduz coletivamente, enquanto os membros individuais não são autossuficientes.
- Mutabilidade: os moldes devem ser copiados com erros ocasionais, gerando variação hereditária. Sem variação de sequência, não há nada sobre o que a seleção possa atuar, e o ciclo seria um estado estacionário químico e não um sistema em evolução.
Um hiperciclo satisfaz, portanto, simultaneamente os pré-requisitos de metabolismo, autorreprodução e mutabilidade e é, nesse sentido preciso, um sistema darwiniano ao nível molecular.
Seleção sob organização global constante
Para descrever como esse sistema é selecionado, o ciclo é colocado num regime de organização global constante: a concentração total de replicadores é mantida fixa, pelo que a competição se exprime como uma redistribuição de quotas, e não como um crescimento ilimitado. A cada variante i é então atribuído um valor seletivo Wii, a sua vantagem líquida de replicação, e a dinâmica assume a forma familiar
Duas características deste par de equações são importantes para o hiperciclo. Em primeiro lugar, Wii é a vantagem líquida da variante i, pelo que um mutante com melhor suporte catalítico do seu parceiro hipercíclico adquire um Wii maior sem qualquer alteração no ambiente. Em segundo lugar, E(t) é a produtividade excedente média, a média populacional dos valores seletivos; é subtraída igualmente a todas as variantes e é exatamente o que mantém a concentração total constante. Como E(t) é uma média populacional, sobe à medida que as variantes inicialmente mais aptas se propagam, e a vantagem de crescimento dessas variantes é progressivamente erodida até que a distribuição se torne estacionária.
O verdadeiro alvo da seleção é a quase-espécie
A seleção não atua sobre uma única sequência ótima. A mutação converte continuamente variantes umas nas outras, e o equilíbrio mutação-seleção produz uma distribuição organizada e estável de sequências centrada num tipo dominante: a quase-espécie. A organização hipercíclica acrescenta uma camada adicional de acoplamento coletivo, porque as unidades acopladas não são sequências individuais, mas quase-espécies inteiras, cada uma fornecendo suporte catalítico à seguinte. A explicação escala, portanto, da quase-espécie como unidade de seleção molecular ao hiperciclo como unidade de seleção de segundo grau ou superior.
O limiar de erro não é contornado
A organização coletiva não flexibiliza a exigência de fidelidade que restringe qualquer replicador. A manutenção reproduzível da informação exige que a fidelidade de cópia seja elevada em relação à quantidade de informação armazenada: acima de uma taxa de mutação crítica, a nuvem de mutantes alarga-se sem limite e a distribuição organizada dissolve-se. Esta mesma condição aplica-se a todos os membros do ciclo e, dado que os membros dependem uns dos outros cataliticamente, a sua perda de informação é cooperativa. O hiperciclo herda o limiar de erro dos seus componentes; não o evita.
